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             O choro


             Antonio Carlos Alves de Araújo *
             PsicólogoC.R.P: 31341/5
             Comunique-se
             13, Outubro/2003

 


            "Chorar compulsivamente é uma tentativa inesgotável da fixação na mais profunda dependência emocional, desejando a regressão a uma etapa infantil da vida, a fim de se obter todo o afeto negado, se travando um duelo entre a carência emocional que clama por toda a atenção, juntamente com as tarefas afetivas da pessoa no atual momento de sua vida, que infelizmente se recusa a realizar. A mensagem é clara: não há pressa no crescimento e amadurecimento, apenas um protesto infindável pelo não reconhecimento de sua pessoa por parte principalmente de seus pais, ou ainda um velório interminável de suas pendências passadas, reclamando toda à atenção do meio para seu imenso sofrimento, priorizando a autocomiseração e desamparo.

Significado psicológicos e como o
mesmo funciona na depressão e tristeza.

            Outro tema desprezado pela psicologia ao longo de sua história se refere à questão dos elementos psicológicos do choro. É interessante como uma reação fisiológica e psíquica, presente em quase todos os distúrbios comportamentais e de personalidade, não mereceu a atenção devida no decorrer dos trabalhos psicológicos apresentados. O choro é inicialmente a mais pura admissão de um processo de tristeza ou consternação, sendo que com o mesmo, a pessoa desiste do hábito arraigado em nossa cultura da dissimulação e constante tentativa de mostrar que se é forte do ponto de vista pessoal perante seus semelhantes. O choro mostra a maneira mais límpida de como revelamos nosso íntimo para os outros, e se há um sentido positivo com esta atitude. É exatamente neste ponto, que devemos tratar o choro como um fator selecionador, tentando o separar de fatores neuróticos envolvidos em tal descarga afetiva.

            Chorar compulsivamente é uma tentativa inesgotável da fixação na mais profunda dependência emocional, desejando a regressão a uma etapa infantil da vida, a fim de se obter todo o afeto negado, se travando um duelo entre a carência emocional que clama por toda a atenção, juntamente com as tarefas afetivas da pessoa no atual momento de sua vida, que infelizmente se recusa a realizar. A mensagem é clara: não há pressa no crescimento e amadurecimento, apenas um protesto infindável pelo não reconhecimento de sua pessoa por parte principalmente de seus pais, ou ainda um velório interminável de suas pendências passadas, reclamando toda à atenção do meio para seu imenso sofrimento, priorizando a autocomiseração e desamparo.

            Para este tipo de personalidade que eleva o choro a categoria de um deus, a sua felicidade pessoal é a eterna esperança de receber aquilo que jamais pode usufruir, sendo que acaba não percebendo que o amor ou afeto sempre será algo atual, pois do contrário, o tédio e revolta inundam por completo o arcabouço emotivo da pessoa, caso a mesma se fixe quase que em absoluto nas imagens passadas. A pergunta básica é: O que fazer para determinada pessoa que vive rodeada de fantasmas passados possa retomar concretamente sua afetividade? Como eliminar seu implacável julgamento negativo? Em outros trabalhos, sempre realcei que a neurose em determinado momento se transforma numa espécie de "entidade" à parte, tomando por completo a personalidade do indivíduo. É algo quase que inesgotável do ponto de vista energético. Um exemplo disto é a patologia da anorexia nervosa, onde a pessoa nunca terá a certeza de estar em conformidade com os padrões estéticos impostos não apenas pelo social, mas por si própria, definhando por completo para que receba um elogio tão distante para sua autoestima. A atenção pessoal no caso em questão, assim como no choro compulsivo, está voltada para o universo masoquista, forçando o meio ambiente no reforço desta conduta neurotizada, pois se acostumou a obter atenção emocional apenas desta forma. O problema maior não é apenas a perda do orgulho pessoal, mas a ausência da percepção de que a forma de nutrição emocional que utiliza é um emaranhado neurótico, pois acaba sempre envolvendo pessoas muito mais debilitadas que o próprio sujeito imbuído do complexo do choro, sendo que o gozo das mesmas é o testemunho constante do sofrimento alheio.

            O choro conduz fielmente ao ponto central da depressão e tristeza, ou apenas é uma fuga da ansiedade, ou das experiências dolorosas de abandono e esquecimento do sujeito perante o meio social? Se diariamente notamos uma total insensibilidade do meio que nos cerca, não será esta representação psíquica uma espécie de último apelo para que outros desenvolvam algum afeto para com a pessoa? Parece que esta energia afetiva estacionária é como um último forte na defesa dos cuidados emocionais que a pessoa sentiu nunca ter recebido, sendo que a demonstração é sempre o apelo e a representação do sofrimento. Outra pergunta que se faz necessária é: Que experiências emocionais desejamos vivenciar? Dor, angústia, sofrimento, ou busca pelo prazer? Obviamente quando não temos um sólido projeto emotivo, as experiências passadas de frustração preencherão todos os espaços. O tão propalado conceito de "inteligência emocional", nada mais é do que a escolha da pessoa sobre qual tipo de afetividade deseja vivenciar corriqueiramente: prazer ou exploração das imagens inacabadas de tormento e dor.

            Na nossa sociedade atual de narcisismo, competição e culto à superioridade pessoal, não deixa de ser curiosa à fixação do choro na tentativa da conquista de benefícios afetivos. Seria um processo inverso perante as expectativas de perfeição exigidas? A resposta é negativa, pois o processo do choro compulsivo é apenas a contraparte do esforço neurótico que todos fazem para obter uma posição de destaque e primazia perante o meio, sendo que o choro é uma espécie de "arranjo psíquico", para que a pessoa não passe diretamente pela situação da prova, como dizia o psicólogo Alfred Adler. A prova, para o mesmo é a aceitação e confirmação da comunidade perante o talento e importância individual do sujeito, e se o mesmo sofre de um complexo de inferioridade ou impotência social irá remanejar sua criatividade e potencial para uma descarga afetiva interminável, adiando eternamente a exposição de seus conteúdos íntimos perante o social.O choro é a antecipação mórbida da crítica intolerável que a pessoa sente que jamais conseguirá digerir. É fundamental a vivência terapêutica no intuito do paciente perceber que a prova de sua sensilibidade emotiva está direcionada contra o mesmo, sendo que deverá aprender a usar sua energia disponível em atividades criativas e prazerosas, evitando o represamento afetivo gerado pela angústia e frustração diante de seu passado de carência.

            "Temer qualquer contato ou ajuda profissional, é viver numa espécie de culto ao sofrimento".

 

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